Responsabilidade Intinerante

Franklin Gomes

Categoria: Opinião

A investigação policial no Brasil, que compreende também a perícia técnica levada à cabo pelos Institutos de Criminalística, sempre foi alvo de ataques dos mais variados.

A justificativa é que há a proliferação do crime em razão da ausência de punição efetiva (a despeito de questões culturais e sociais, cuja influência é dantesca nesse cenário), e se atribui parcela dessa responsabilidade aos órgãos policiais, nos quais incluem-se tanto a polícia judiciária (Estadual e Federal) quanto às policias administrativas.

Por outro lado, estas acusam o Poder Judiciário, de contribuir para o sentimento de impunidade, ao permitir a liberdade àqueles que foram apontados como autores de crimes em suas investigações (sem deixar de alegar, com toda a propriedade, a ausência de mecanismos ou instrumentos para condução de investigações com maior rigor científico – sem falar no “aparato humano”, escasso e mal remunerado). É o jargão policial “a polícia prende e o juiz solta”.

Já o judiciário, por sua vez, justifica “Cumprimos a LEI”, fazendo crer que se há interesse social em modificar suas decisões há, primeiramente, que viabilizar outros mecanismos, cuja possibilidade de criação está na mão do Poder Legislativo.

Aquele, muitas vezes no afã eleitoreiro, afastando-se de questões de ordem legal, técnicas e sociais (reservadas as exceções), resolve com uma canetada o problema: “Vamos aumentar as penas e impedir benéficos”, sem avaliar, muitas vezes, não apenas a eficácia da medida e o rigor técnico de sua redação, mas a possibilidade de sua aplicabilidade, dentro de um conjunto de normas sistêmico ao qual todos estão submetidos prioritariamente: a CONSTITUIÇÃO FEDERAL.

E então voltamos ao início do texto: a polícia diz que investiga, o juiz que cumpre a lei, o legislador que aumenta a pena e diminui os benefícios e nós (que fazemos parte do problema, ativa e passivamente) permanecemos incrédulos ao vermos o retrato de nossas vidas nos noticiários policiais sensacionalistas.

Esse círculo vicioso, cuja ruptura é aparentemente fácil, nos consome há décadas. Invocamos mudanças, mas o poder que do POVO emana, soa como um tímido grunhido, incapaz de promover mudanças ou se fazer escutar.

Não são os policias que não combatem a criminalidade. Não é o juiz que não cumpre a lei. Não é o legislador que não cria leis severas ou adequadas. Sou eu, é você, somo nós, o POVO, que fomentamos a desordem e o desrespeito ao ordenamento, e criamos esse cenário, bradando aos quatro ventos a proeza cultural do princípio moral que lamentavelmente está enraizado em inconsciente: “o jeitinho brasileiro”.

Esse “jeitinho brasileiro”, malicioso e que parece condescender com “pequenos deslizes”, vantagens, traz a faceta da “lei de Gerson”, muito embora esteja envolto em qualidades que são nossa alma, como a alegria, a disposição em lutar e, mais do que isso, a crença de que há um mundo melhor e que ele, cedo ou tarde, chegará. “As coisas vão melhorar. Eu acredito”.

E como é tempo de renovar, que tal começarmos pelo jeitinho brasileiro? Ele está impregnado em nossa cultura e abandoá-lo é tarefa não apenas ingrata, mas talvez inviável. Então, vamos dar-lhe uma roupagem moderna, talvez tecnológica ou simplesmente atualizá-lo, como se fosse um programa que está inserido em nosso DNA.

Faça você e convide os seus para fazerem o download de atualização do nosso maior programa. Os bugs que antes faziam parte do pacote foram superados e novas funcionalidades já estão presentes, permitindo uma interação “com outras mídias”. Descubra que o jeitinho brasileiro não é mais aquele que vigorava há tempos atrás, mas um novo, que em nada se assemelha àquele.

E lembre-se: temos atualizações diárias, que podem ser “baixadas” a cada escolha que fazemos, seja ao comprar um produto original, ajudar quem precisa, ter atitudes positivas. Mas a grande atualização é a quadrienal. Esse você não pode perder.

E ATENÇÃO: faça o download do arquivo correto. Há muitos vírus espalhados que se parecem com programas de atualização. Eles te enganam e corrompem sua memória, com o conhecido “jeitinho brasileiro”. E pior, nova atualização só daqui a quatro anos. Até lá, o vírus pode ter destruído nossas esperanças. E durante esse período, voltaremos às lamentações… polícia, juiz, político….